quarta-feira, 21 de agosto de 2013

45 anos do fim da Primavera de Praga


A Primavera de Praga de 1968 é o termo usado para o breve período de tempo, em que o governo da Tchecoslováquia, liderado por Alexander Dubcek aparentemente queria democratizar o país e diminuir o poder que Moscou tinha sobre assuntos da nação. A Primavera de Praga terminou com a invasão soviética, a remoção de Alexander Dubcek como líder do partido e o fim das reformas na Tchecoslováquia.

Os primeiros sinais de que nem tudo estava bem na Tchecoslováquia ocorreu em maio de 1966, quando houve queixas de que a União Soviética estava explorando as pessoas. Aos poucos as pessoas na Eslováquia começaram a reclamar que o governo de Praga estava impondo suas regras sobre os eslovacos e diminuindo a  autonomia local. A economia fraca agravaou a situação e nenhuma das reformas que foram introduzidas funcionou. Os trabalhadores permaneceram em condições precárias de habitação e viviam o mais básico dos estilos de vida. O mesmo ocorreu na Tchecoslováquia rural.

Em junho de 1967, houve crítica aberta à Antonin Novotný, líder do Partido, no Congresso da União dos Escritores. Em outubro de 1967, os estudantes protestaram contra Novotný e no início de 1968, ele foi substituído como primeiro-secretário do Partido por Alexander Dubcek. Embora não tivesse almejado a liderança do movimento anti-Novotný, havia entregue uma longa lista de queixas contra ele (Setembro de 1967), Dubcek era a escolha óbvia.

No dia 5 de abril 1968, Dubcek iniciou um programa de reformas que incluía emendas à Constituição da Checoslováquia, que trazia de volta ao País um grau de democracia política e uma maior liberdade pessoal.
Dubcek anunciou que o Partido Comunista checo continuaria a ser o partido predominante na Tchecoslováquia, mas que queria que os aspectos totalitários do partido fossem reduzidos. Membros do Partido Comunista da Tchecoslováquia tiveram o direito de contestar a política do partido em oposição à aceitação tradicional de toda a política do governo. Os membros do partido tinham agora o direito de agir "de acordo com sua consciência". A partir daí esse movimento de reformas ficaria conhecido como "Primavera de Praga", em que eram  anunciados também o fim da censura e o direito dos cidadãos checos para criticar o governo. Com a abertura, os jornais aproveitaram a oportunidade para produzir matérias contundentes sobre a incompetência do governo e a corrupção que nele imperava. O  péssimo estado da habitação para os trabalhadores tornou-se um tema muito comum.

Dubcek também anunciou que os agricultores poderiam formar cooperativas independentes ao invés de seguir as ordens provenientes de uma autoridade centralizada. Aos sindicatos foi dada ampla liberdade para negociar com os seus membros.

Dubcek assegurou a Moscou que a Tchecoslováquia permaneceria no Pacto de Varsóvia e que eles não tinham nada para se preocupar no que diz respeito às reformas.  Não precisa nem dizer que essas palavras não tranquilizararam o líder soviético Brejnev e na madrugada entre o dia 20 e 21 de agosto de 1968  tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia para reafirmar a autoridade de Moscou. A maior parte destas tropas eram da União Soviética, mas também foram enviados contigentes poloneses, húngaros, búlgaros e da Alemanha Oriental.  

Ficou claro que os tchecos não tinham capacidade para resistir à a invasão e, apesr de tudo, não houve derramamento de sangue, em contraste com o levante húngaro de 1956.

As reformas de Dubcek foram abandonadas. Ele foi preso e enviado a Moscou. Pouco tempo depois retornou ao seu país ainda como primeiro-secretário do Partido. Na sequência, seguindo determinação do Kremlin, Dubcek anunciou a suspensão de todas as reformas e em abril de 1969, foi afastado do cargo.

A Primavera de Praga provou que a União Soviética não estava disposta ou sequer cogitava a saída de qualquer membro do Pacto de Varsóvia. Os tanques que ocuparam as ruas de Praga reafirmaram para o ocidente de que os povos do leste europeu eram oprimidos e não viviam em  democracia como na Europa Ocidental ao passo que para o Kremlin assegurou a manutenção do Pacto de Varsóvia, considerado vital para a sobrevivência do comunismo na Europa como um todo.

Após deixar o poder Dubcek foi membro do parlamento e embaixador na Turquia até ser expulso do partido em 1970. Depois disso virou burocrata e foi trabalhar no serviço florestal. Só voltaria a vida política com a eclosão da Revolução de Veludo em 1989 que trouxe fim ao comunismo no país e inspirou o leste europeu a se redemocratizar.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

O fim de uma era






Na manhã de hoje o Manchester United anunciou a aposentadoria de Sir Alex Ferguson no cargo de manager da equipe. É o fim de uma era, o fim de um ciclo. No referido cargo desde 1986, Fergie como é conhecido no Reino Unido, é o maior vencedor do futebol inglês e um dos técnicos mais vitoriosos da história do esporte bretão. É bom que se diga que na Inglaterra, o manager equivale ao gerente de futebol. Só que lá, dentre outras tarefas, ele monta o time e o respectivo esquema tático, delega tarefas à comissão técnica e ao departamento médico, acompanha as divisões de base, e é o responsável direto pela compra, venda e troca de jogadores.

O que dizer desse escocês de 71 anos que praticamente conquistou todos os títulos possíveis, ficaram faltando uma copa do mundo e uma medalha olímpica, mas isso nunca foi uma obsessão.

Nascido em Glasgow no dia 31 de dezembro de 1941, Alexander Chapman Ferguson, estreou no futebol como atacante aos 16 anos pelo Queen´s Park, modesta equipe escocesa. Lá ficou até 1960, marcando 15 gols em 31 partidas. Curiosamente, Ferguson só jogou na Escócia, atuando de 1960 à1964 pelo St. Johnstone,  Dunfermline Athletic (1964-1967), Glasgow Rangers (1967-1969), Falkirk (1969-1973), encerrando a carreira no Ayr United (1973-1974). Como jogador, atuou em 317 partidas e marcou 170 vezes.

A carreira de manager começaria logo quando pendurou as chuteiras. Em 1974, aos 32 anos fazia seu debut no East Stirlingshire, clube pequeno que nem goleiro dispunha naquela ocasião, ganhando 40 libras por semana. Em outubro desse mesmo ano recebeu o convite do St. Mirren que, embora estivesse em uma má fase, possuía uma estrutura bem melhor. Lá ficaria até 1978, montando uma equipe competitiva e ganhando a segunda divisão escocesa em 1977. Curiosamente foi o único clube a ter demitido Ferguson, um dos motivos foi o pagamento por fora aos jogadores.

Em junho de 1978, Ferguson assumiu o Aberdeen. Embora fosse um dos grandes da Escócia, só havia conquistado o campeonato nacional uma única vez, em 1955. Rapidamente a equipe chegou até as semi-finais da Copa da Escócia e da Copa da Liga Escocesa, perdendo em ambas as oportunidades. Na temporada seguinte 1979-80, foi vice-campeão da Copa da Liga, feito recompensado com o título nacional, quebrando uma sequência de títulos de Celtic e Rangers que se reversavam na hegemonia. Com o fim do jejum do clube, Fergunson ganharia mais 2 títulos nacionais (1983-1984 e 1984-1985), além do tetra da Copa da Escócia (1982-1983-1984 e 1986). Porém a maior conquista do clube viria na temporada 1982-1983, na Recopa, após eliminar o poderoso Bayern Munique, a equipe chegaria à final e venceria outro todo poderoso, nada mais nada menos que o Real Madrid (2x1).

Os feitos no Aberdeen logo chamaram a atenção de outros clubes dentre eles o Rangers, Arsenal e Tottenham. Em 1984 foi nomeado cavalheiro da Ordem do Império Britânico (OBE) ganhando o título de Sir. No ano seguinte era membro da comissão técnica da seleção escocesa sob o comando de Jock Stein, que veio a falecer após o dramático empate com País de Gales em 1x1, que assegurou um play off contra a Austrália para decidir a última vaga para a Copa do Mundo de 1986. Stein era uma espécie de mentor para Ferguson que o substituiu na disputa no México. A Escócia acabou caindo no chamado ‘’grupo da morte’’, ao lado de Alemanha Ocidental, Dinamarca e Escócia. A campanha escocesa naquele certame foi de duas derrotas (0x1 Dinamarca e 1x2 Alemanha)  e um empate (0x0) com os uruguaios.

Em novembro de 1986, Ferguson acabou aceitando o convite do Manchester United para substituir Ron Atkison que havia sido demitido. Quando assumiu a equipe estava na 21º colocação. A estreia foi com uma derrota por 2x0 para o Oxford United. Rapidamente o técnico disciplinador afastou jogadores beberrões e focou na melhoria da preparação física. O Manchester United terminou na 11º posição na temporada 1986-1987.

O primeiro título foi a FA Cup (Copa da Inglaterra) na temporada 1989-90 ao vencer o Crystal Palace por 1x0, quando todos davam sua demissão como certa. Na temporada 1990-1991, após o vice da Copa da Liga Inglesa, ao perder a final para o Sheffield Wednesday por 1x0, veio o título da Recopa (que reunia os campeões das copas nacionais da Europa e que não existe mais) ao bater o Barcelona por 2x1. Porém os críticos cobravam pelo fim do jejum de mais de 20 anos sem o título do campeonato inglês e o pressionavam a cada chance perdida.

Na temporada de 1991-1992 o United ganharia a Copa da Liga e a Supercopa Inglesa. O futebol inglês sofreu uma reformulação e com ela veio a Premier League. Após um bom ínício, a chance de título foi para o espaço e os campeonato foi para o Leeds United. As coisas começariam a mudar para valer quando o francês Eric Cantona foi contratado para a temporada 1992-1993. Após 26 anos de jejum, o Manchester United conquistava o título inglês.

Na temporada seguinte, após perder a final da Copa da Liga para o Aston Villa por 3x1,  o United foi campeão da Premier League e da FA Cup, após massacrar o Chelsea na final por 4x0. Em 1996 revelou uma geração de jogadores que ficou famosa: os irmãos Gary e Phil Neville, Nick Butt, David Beckham e Paul Scholes. Mas o ápice viria em 1999 quando a equipe faturou o Treble ou a Tríplice Coroa (Liga, FA Cup e a Champions League, após uma virada nos minutos finais contra o Bayern Munique). Uma segunda Champions viria na temporada 2007-2008 após vencer o Chelsea nos penais.

Famoso pelo temperamento forte, Sir Ferguson coleciona desafetos e momentos de explosão que ficaram famosos. Sua constante intimidação aos árbitros e o esporro nos jogadores foram apelidados de Hairdryer Treatment (secador de cabelo, pelo barulho que faz). Em 2003 numa dessas explosões no vestiário Ferguson deu uma bicuda em uma chuteira que acertou o rosto de David Beckham resultando em alguns pontos no supercílio do jogador.

Pelo Manchester United, Ferguson é o recordista de partidas. Ao todo foram 1498, com 894 vitórias, 337 empates e 267 derrotas, com os Devils marcando 2.762 vezes e sofrendo 1.359. A última partida será a 1500º,  contra oWest Bromwich Albion, no dia 19 de maio.

Após o anúncio da aposentadoria as ações do Manchester United chegaram a cair 4, 05% na bolsa de Nova York. As casas de apostas já indicam os mais prováveis substitutos dentre eles o técnico do Everton, David Moyes (favorito até o momento), o polêmico José Mourinho e o assistente de Ferguson, Mike Phelan.

Por fim, aqui vai os 49 títulos conquistado por Sir Alex Ferguson:



ST MIRREN
Segunda Divisão Escocesa (1): 1976-77.


ABERDEEN

Campeonato Escocês (3): 1979-80, 1983-84, 1984-85.

Copa da Escócia (4): 1981-82, 1982-83, 1983-84, 1985-86.

Copa da Liga Escocesa (1): 1985-86.

Recopa (1): 1982-83.

Supercopa Européia(1): 1983.

MANCHESTER UNITED

Premier League (13): 1992-93, 1993-94, 1995-96, 1996-97, 1998-99, 1999-2000, 2000-01, 2002-03, 2006-07, 2007-08, 2008-09, 2010-11, 2012-13.

FA Cup (5): 1989-90, 1993-94, 1995-96, 1998-99, 2003-04.

Copa da Liga (4): 1991-92, 2005-06, 2008-09, 2009-10.

Supercopa da Inglaterra (Charity/Community Shield) (10): 1990 (divida), 1993, 1994, 1996, 1997, 2003, 2007, 2008, 2010, 2011.

Champions League (2): 1998-99, 2007-08.

Recopa (1): 1990-91.

Supercopa Européia (1): 1991.

Copa Toyota (1): 1999.

FIFA Club World Cup (1): 2008.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Quando Niterói e o Brasil encontram Santa Maria

O Brasil acordou ontem com a notícia da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. No triste evento morreram mais de 230 (o número pode subir) e mais de 100 feridos. Fruto da nossa ancestral falta de cultura de segurança, onde mostramos que só fechamos a porta depois de roubado.

A tragédia de Santa Maria foi o segundo maior incêndio em vítimas fatais do pais. O primeiro lugar é ocupado pelo incêndio do Gran Circo Norte Americano, ocorrido em 1961, em Niterói, Rio de Janeiro, onde morreram mais de 500 pessoas, na sua grande maioria crianças.

O circo chegou em Niterói no dia 08 de dezembro de 1961, estreando uma semana depois. Era tido como o maior e mais completo circo da América Latina, dispondo de sessenta artista, vinte empregados e 150 animais. Foi montado no centro da cidade, na Praça do Expedicionário.

A versão oficial é de que a montagem demandava tempo e muita mão de obra. Foram contratados cinquenta trabalhadores avulsos para a montagem. Um deles, Adílson Marcelino Alves, conhecido como Dequinha, tinha antecedentes criminais e problemas mentais. Ele trabalhou dois dias e foi demitido pelo dono do circo, Danilo Stevanovich. Após o ocorrido, Dequinha ficou inconformado e passou a rondar o circo.

No dia da estréia, o circo estava com lotação esgotada e a venda de ingressos foi suspena. Nessa noite, Dequinha tentou entrar no circo sem pagar, mas foi visto e impedido pelo tratador de elegantes.

No dia seguinte, um sábado, Dequinha voltou e começou a procurar Maciel Felizardo, funcionário acusado de ter sido o culpado da sua demissão. Houve um discussão entre os dois, onde Felizardo acabou agredindo Dequinha, que reagiu e jurou vingança.


No dia 17 de dezembro, Dequinha convidou José dos Santos, o Pardal, e Walter Rosa dos Santos, o Bigode, para, juntos, colocarem fogo no circo. Um dos comparsas chegou a alertar para a lotação esgotada e o risco de mortes. Porém, Dequinha manteve-se irredutível. O desejo de vingança falava mais alto.
Com cerca de três mil pessoas na platéia, faltavam vinte minutos para o fim do espetáculo, quando uma trapezista percebeu o incêndio. Em cinco minutos, as chamas consumiram completamente o circo. 372 pessoas morreram na hora, o restante foi morrendo, aos poucos, no hospital.


Uma grande comoção tomou conta do país e do mundo. Afinal, o incêndio tornou-se o maior do mundo em ambiente fechado até hoje. Da Argentina, vieram seis cirurgiões plásticos e oito enfermeiras do Instituto Nacional de Queimados, além de uma tonelada de medicamentos e material cirúrgico. A embaixada americana doou um estoque de antibióticos, ataduras e soro, e seu governo, em colaboração com a Cruz Vermelha, enviou 500 frascos de plasma sanguíneo.
O Hospital Antônio Pedro recebeu a maioria dos feridos. Por estar fechado havia vinte dias devido a uma grave, faltava de tudo para o seu funcionamento. Graças ao empenho dos órgãos públicos e da sociedade, em pouco tempo foi obtido um grande número de doadores de sangue, medicamentos, roupas, material hospitalar e comida. Todos os carpinteiros e marceneiros da cidade foram convidados a trabalhar e confeccionar caixões.


Cinco dias depois, Dequinha e os cúmplices foram presos. Dequinha foi condenado a 16 anos de prisão e mais seis de internação em manicômio judiciário. Bigode foi condenado a 16 anos de prisão e mais um de colônia agrícola. Por sua vez, Bigode foi condenado a 14 anos de prisão e mais dois em colônia agrícola.
Em 1973, um mês após fugir da prisão, Dequinha foi assassinado.


Cinquenta e dois anos depois, a tragédia de Santa Maria possibilita o debate sobre a segurança das casas de shows, a falta de uma cultura de prevenção e planejamento de tragédias e o grande senso de solidariedade do brasileiro, que em casos como esse, excede fronteiras.


Fica o desejo de que os (i) responsáveis sejam punidos e que possamos aprender com essa tragédia e, também, que se evitem novas catástrofes.

Fontes: Wikipedia e http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/tragedia-sem-fim

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Fúria do Nevado del Ruiz






O Nevado del Ruiz, localiza-se na Colômbia, região dos Andes,  constituindo-se no vulcão com atividade histórica mais alto e mais setentrional daquele país. Situado a 150 quilômetros de Bogotá, seu cume atinge 5.389 de altitude.

Apesar de estar localizado a apenas 500 quilômetros da linha do Equador, é coberto por um manto de gele e neve cuja área é estimada em 21,3 km2, com espessura variando entre 10 e 30 metros, com um volume aproximado de 337 milhões de m3.

Em 1984 o vulcão mostrou sinais intermitentes de atividade: sismos, fumarolas mais intensas e algumas pequenas explosões freáticas (emissão de vapor) na cratera de Arenas, no topo do vulcão, que se prolongaram pelo ano seguinte.

O vulcão, adormecido desde 1845, preparava-se para despertar.  No início de setembro de 1985 intensificou-se a atividade sísmica, culminando com explosões freáticas mais intensas.Porém, em novembro daquele ano viria a tragédia. No dia 10, iniciou-se uma nova onda de sismos. No dia 13, às 15:05, verificou-se uma forte explosão freática na cratera vulcânica. Embora, com frequência, o topo do Nevado del Ruiz não esteja visível devido à cobertura de nuvens, pessoas situadas ao norte do vulcão observaram uma grande coluna de fumaça saindo da cratera, que atingia grande altura.

Aproximadamente uma hora mais tarde, na cidade de Armero, localizada a uns 45 quilômetros da cratera, começaram a cair cinzas vulcânicas e o dia escureceu bastante, seguido pela chuva intensa. Todavia, os habitantes não entraram em pânico, já que havia mensagens tranquilizadoras tanto do prefeito, emitidas pelo rádio, como do padre, proferidas através do sistema de som da igreja, que instruíam a população a manter a calma e ficarem dentro de suas casas.
Apesar disso, a Cruz Vermelha, após uma reunião do Comité Regional de Emergência que terminou às 19:00, decidiu aconselhar as autoridades locais das cidades de Armero, Mariquita e Honda para prepararem a evacuação das populações. Parecia que as cinzas estavam parando de cair na cidade, fato que foi, por muitos, interpretado como tranquilizador. Porém, a chuva continuava a cair intensamente, provocando cortes intermitentes na energia elétrica. Provavelmente a soma destes fatores, associado à escuridão da noite que chegara, não tornou possível a evacuação da população. 

Entre 21 e 22h, duas violentas explosões lançaram para o céu colunas de até 8.000 metros de cinzas e fogo. O vulcão entrava em erupção, desencadeando uma sucessão de eventos catastróficos. O fortíssimo calor liberado derreteu camadas de gelo e neve, que engrossaram sobremaneira os rios nascidos no sopé da montanha. Formou-se então um gigantesco aluvião de lama, que se abateu furiosamente sobre as cidades de Armero, Libano, Chinchina, Fresno e Lerida, inundando uma área de 180 km2. 

Em Armero, a devastação foi total. Dos cerca de seus 50 mil habitantes, calcula-se que mais de 23 mil morreram e 25 mil ficaram feridos. Segundo relatos dos sobreviventes de Armero os sucessivos fluxos tiveram características diferentes, sendo o primeiro essencialmente aquoso e os seguintes cada vez mais densos e menos velozes. A maioria da população estava dormindo na hora que os fluxos de lama chegaram. 

O primeiro fluxo a atingir Armero, às 23:25, era constituído por água com lama, sendo a temperatura do fluído normal ou apenas ligeiramente fria. Tratava-se, provavelmente, da água da barragem que existia um pouco antes da cidade, e que foi destruída pelo rio de lama. Este fluxo, apesar de arrastar pessoas e carros, não atingiu grande altura, apenas tendo inundado a parte baixa da cidade apenas com alguns centímetros.

Porém, uns dez minutos mais tarde, veio o segundo fluxo, essencialmente do tipo fluxo de lama, que foi o maior e mais destrutivo, e que perdurou 10 a 15 minutos. Os sobreviventes referem que foi acompanhado por um rugido ensurdecedor. A altura atingida por este fluxo variou entre 3 e 6 metros. No hospital local o nível da lama atingiu os seis metros, tendo-se os sobreviventes refugiado no telhado, onde, durante toda a noite, caíram continuamente cinzas vulcânicas quentes misturadas com chuva. Nesta cidade o ar, com intenso odor a enxofre, era quase irrespirável. O rugido surdo provocado pela progressão dos fluxos no curso do rio Lagunillas continuou até de manhã cedo. 
Conhecida como ‘’a cidade branca da Colômbia’’, por causa das plantações de algodão e arroz, Armero se transformou num lodaçal cinzento. Da Igreja, a construção mais alta, sobrou apenas a torre. Somente o cemitério, situado no topo de uma colina, escapou ileso, juntamente com poucas casas situadas na parte mais alta.

Quando as equipas de socorro chegaram, no dia 14, depararam com o caos! O que viram foi uma massa confusa de pedras, árvores, restos de casas, carros e corpos mutilados integrados numa matriz de lama cinzenta. Alguns sobreviventes agonizavam nesta massa enquanto outras pessoas faziam tudo o que podiam para as salvar.
 
Dispersos no lamaçal estavam mais de 23 mil pessoas que tinham perecido, juntos com restos de 4500 casas que tinham sido destruídas e os corpos de mais de 15000 animais mortos. Os prejuízos financeiros foram estimados em mais de um bilião de dólares, ou seja, cerca de um quinto do Produto Nacional Bruto da Colômbia.
 
O símbolo da tragédia foi Omayra Shanchez, uma menina de 13 anos, que foi levada pelo lamaçal e ficou enterrada na lama até o pescoço, assim permanecendo durante três dias. Todos os esforços para salvá-la foram em vão, uma vez que estava presa por destroços e pelo cadáver da tia. As bombas que extrairiam a lama espessa que a envolvia só chegaram após ela ter sucumbido pela hipotermia e inalação de gases tóxicos.

A sua agonia foi seguida por milhões de telespectadores por uma equipe da Televisão Espanhola (TVE). Apesar de tudo, Omayra revelava um senso de humor notável e uma esperança irredutível, enviando mensagens de apoio para amigos e familiares, principalmente a sua mãe que estava ausente por ter ido a Bogotá, antes da catástrofe.

Fontes: 
Geologia Ambiental :   w3.ualg.pt/~jdias/.../NevadodelRuiz/NRuiz_1.html 
Revista Veja, edição 898, páginas 100 a 103, 20/11/1985

domingo, 14 de outubro de 2012

Cesio 137 - 25 anos depois




Era uma tarde de domingo, quente e ensolarada, em Goiânia. Naquele 13 de setembro de 1987, dois sucateiros, Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira, foram até as ruínas do prédio onde antes funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia, situado entre as avenidas Tocantins e Paranaíba, no centro da cidade. Eles tinham conhecimento de que no local existia um equipamento abandonado, embora não soubessem do que se tratava. A possibilidade de lucrar com a venda no ferro-velho os motivava, pois o equipamento era pesado e revestido de chumbo e metal.


Como o equipamento era muito pesado eles o quebraram em duas partes. Para facilitar o transporte, eles ficaram  com a peça menor , cuja cápsula de césio estava acoplada na extremidade.
Levaram para a casa de Roberto que ficava localizada no nº 68 da Rua 57, Setor Central. No quintal, usando ferramentas comuns, conseguiram separar a parte de chumbo do restante ra peça. Nesse processo, foi rompida a janela de irídio que revestia a cápsula contendo o césio 137, permitindo a liberação de radioatividade para o meio ambiente.


Sem saber de nada, os dois homens iniciavam o maior acidente radioativo em área urbana do mundo. Com o passar do tempo os dois sucateiros começaram a passar mal. 


Cinco dias depois, foram até o ferro-velho de Devair Ferreira e venderam a peça. Lá, dois funcionários conseguiram desmontar a cápsula e deixaram os pedaços em uma prateleira. Quando à noite veio, Devair percebeu um brilho azul que vinha da prateleira. Pegou uma parte da cápsula e levou para dentro de casa para mostrar à esposa, Maria Gabriela. 


A partir desse momento, a peça contendo o pó azul que brilhava no escuro, que na verdade era, fragmentos do césio 137, passou a circular entre os parentes e amigos que, impressionados com a novidade, não tinham a menor idéia do perigo que aquele material representava.


Rapidamente as pessoas que tiveram contato com o misterioso pó, começaram a apresentar alguns sintomas como náuseas, tontura, vômitos e diarreias. Desconfiada a esposa de Devair, Maria Gabriela, levou parte da cápsula até a sede da Vigilância Sanitária. Foi solicitada a presença de um físico para verificar se o material era radioativo. 


No dia 29 de setembro, o físico nuclear Valter Mendes foi até a rua 57, do Setor Aeroporto e constatou que havia fortes índices de radiação na área. Imediatamente ele acionou a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e às autoridades governamentais.


Infelizmente já era tarde demais. Ao abrir a cápsula foi lançado no ambiente 19,26 g de cloreto de Césio 137 (CsCl), que por ser higroscópio, absorve a umidade do ar e facilmente adere à roupa, pele e utensílios, contaminando alimentos e o organismo.


Por isso, a radiação atingiu centenas de pessoas, repercutindo no Brasil e no resto do mundo.  Curiosamente, um ano antes, uma explosão no reator da usina nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética, gerou um vazamento que foi o maior desastre nuclear da história,  matando milhares de pessoas e que chocou o mundo.


Ao ser notificada do acontecido, a CNEN determinou que a população fosse examinada. Foi montada uma operação de emergência no Estádio Olímpico que se tornou um centro de triagem. Constatou-se que mais de 112 mil pessoas foram expostas aos efeitos do césio, muitas com contaminação corporal externa revertida a tempo. 129 apresentam contaminação corporal interna e externa, sendo medicadas. Quarenta e nove pessoas foram internadas, sendo que 21 sofreram tratamento intensivo.


No início de outubro, os pacientes mais graves foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Dentre eles estavam  Devair, Maria Gabriela e a menina que se tornou símbolo da tragédia, Leide, que na época tinha seis anos. Ao ser apresentada ao pó brilhante, Leide espalhou césio por todo o corpo e acabou ingerindo a substância.


Infelizmente, Maria Gabriela, Leide e os dois empregados do ferro-velho morreram nos dias seguintes. Ivo, pai de Leide, sofreria de depressão e morreria de efisema pulmonar tempos depois. Devair tornou-se alcoólatra e morreria em 1994. Nos últimos 25 anos, cinquenta e nove pessoas morreram por causa de doenças desenvolvidas pela contaminação. Existem mais de 170 pedidos de indenização na justiça.
E por falar em justiça, os responsáveis pela clínica foram julgados em 1992 e condenados a três anos de prisão em regime semi-aberto. Segundo o extinto Programa Linha Direta, da TV Globo, exibido em 2007, um decreto presidencial anistiou os condenados, libertando-os.


Os trabalhos de descontaminação dos locais afetados produziram 13,4 toneladas de lixo radioativo. O material encontra-se enterrado em uma área na cidade de Abadia de Goiás, perto de Goiânia, devendo ficar enterrado por lá pelos próximos 180 anos.


A pergunta que fica é: será que hoje estamos a salvo de uma tragédia similar?


Links para vídeos sobre o assunto:

Programa Linha Direta Justiça - http://www.youtube.com/watch?v=MfshO3PvlYs&feature=relmfu

Filme Césio 137 – O Pesadelo de Goiânia - http://www.youtube.com/watch?v=-PUJd5qsU0g